quarta-feira, 11 de julho de 2007

Paraty: um sonho vivo


Neste final de semana de Festa Literária de Paraty, cidade idílica, muito sol e um ventinho pronto para refrescar os pensamentos, cervejas geladas, frutos do mar e doces típicos, baianos e portugueses: brasileiros.
Vale anotar aí o restaurante Paraty, com iguarias muito bem feitas e a porção de lula a doré perfeita.
De literatura, para todos os gostos, fico com as falas do Nelson Motta e Arnaldo Jabor sobre Nelson Rodrigues. Ambos conheceram o dramaturgo, romancista e frasista intimamente, a ponto de imitá-lo diversas vezes durante a explanação, o que deu um tom irônico e muito gostoso às apresentações, que por tratarem de Nelson, por si só, já seriam muito interessantes.
Crítico ferrenho da classe média, contador das tragédias transcorridas no seio familiar, relator da vida na zona norte carioca nos anos 50 em diante, cronista de futebol e frasista impagável, Nelson Rodrigues choca e deixa ferida aberta em nossos corações, dilacera membros e relações, nos aborda sem pudores, mostrando o óbvio, o simples, descaradamente. Por isso, tão intrigante e atraente. Do que seremos capazes, do que vivemos, do que sonhamos, do que desejamos. Tudo e o passar dos limites estão presente em seus textos, vividos em suas peças.
Ai que delícia Nelson Rodrigues! Mais brasileiro impossível. A vida como ela é.
Com a palavra, Nelson, sobre o amor:
O que é amor? Nelson, para você, o que é amor?

Sou uma das raras pessoas das minhas relações que acredita no amor eterno. Já escrevi mil vezes: todo amor é eterno e, se acaba, não era amor. O amor não morre - vivo eu dizendo. Morre o sentimento que é, apenas uma imitação do amor muitas vezes uma maravilhosa imitação do amor.

Diz Oswaldinho, na minha peça Anti-Nelson Roddrigues: “Quando eu a vi, senti que não era a primeira vez, que eu a conhecia de vidas passadas.” Isso quer dizer que só quem ama conhece a eternidade. Isso é romantismo de maneira despudorada. Isso é amor. Sou uma alma da Belle Époque e de vez em quando me pergunto o que é que estou fazendo em 1974.

Mas Nelson, não haverá má fé inconsciente na idéia de que se o amor não é eterno ele não era amor?

O amor eterno pode parecer, de fato, uma justificativa de todas as infidelidades. Procurando o seu amor eterno, o homem não seria fiel a ninguém. Acontece que eu já confessei que nunca fui fiel e considero isso uma mácula que tenho quase como um estigma físico. Mas conheço vários casos de amor eterno.

Um deles: o de meu irmão Mário pela minha cunhada Célia. Morreu Mário e Célia matou-se, para segui-lo. Outro caso: O da minha tia Iaiá pelo meu tio Chico. Este era por assim dizer um bêbado nato e hereditário. Mesmo sem beber, continuava embriagado. Era um homem que, nas suas crises de alcoólatra, enfrentava a polícia montada, derrubando cavalos e enfrentando a multidão. Mas era só Iaiá aparecer para que aquele possesso, de repente e mansamente, saísse atrás dela. Nunca Chico elevou a voz para Iaiá. Sempre foi o homem magnetizado pelo amor: era diante dela um menino patético e tão órfão. Aos 80 anos, ele era um namorado bêbado, mas namorado. E assim ele morreu e assim ela morreu com o amor que continua para além da vida e para além da morte, como Mário e Célia.

E o sexo, não faz parte do amor?

Eu acho o sexo uma coisa tranqüilamente maldita, a não ser quando se dá este acontecimento inacreditável, do sujeito encontrar o amor. Mas um sujeito precisa de quinze encarnações para viver um momento de amor. Porque a mulher amada, nada a obriga a estar na cidade onde a gente mora, a cruzar o nosso caminho. De forma que encontrar a mulher amada é um cínico e deslavado milagre. Então o sujeito não tem o direito de usar o sexo a não ser por amor. E dizer que isto é uma necessidade é uma das maiores burrices que se pode imaginar, porque a gente argumenta, quando fala nesta necessidade, como se o homem fosse o Boogie Woogie, um cachorro da vizinhança que namorava uma cadelinha que eu tinha. O Boogie-Woogie, em certo período, vinha para o meio da rua e ali ficava, os carros passando e o atropelando, e ele lá, firme, enquanto a cadelinha, presa na varanda, ficava olhando. O Boogie-Woogie sim, precisava. Nós não: precisamos é de amor. Eu digo isto como um homem que usou com certa freqüência e que criou esta falsa necessidade de uma atividade sexual normal, que eu não considero normal coisíssima nenhuma.

2 comentários:

Jeff disse...

Oi, Letícia!!! :)
Hummm... comida, poesia e romance... Curti teu blog! Já tá lá linkado no meu!!! Bejinhos, jeff

Anônimo disse...

Que história é essa de ficar incentivando a infidelidade masculina?? Não gostei!!! Sem desculpas pra ser infiel!! E ainda botar a culpa no amor!!!
Acho que continua apaixonada...quase 3 1/2 anos depois...bjocas